Acabo de escrever este texto para
a nova edição da Aula-Entrevista.
Por que silábico-alfabético (SA) não é um nível psicogenético?
Porque não se estrutura como um esquema de pensamento, eskema. Um nível tem as características de uma miniestrutura lógica: deve ter compatibilidade de hipóteses e deve ter certo fechamento e certa completude, o que configura um esquema de pensamento.
Ora, falta um eskema ao equivocadamente denominado nível silábico-alfabético(SA).
Interferência de outro eixo
Existe, sim, uma produção escrita com aparências silábico-alfabéticas. O alfabetizando representa, algumas vezes, uma sílaba oral com uma só letra, o que é típico da vivência da hipótese silábica. Porém, o faz por interferência de outro eixo na trajetória rumo à leitura e à escrita, que é o do conhecimento das letras. Neste eixo ele simplifica a escrita de sílabas porque elas correspondem ao nome de uma letra, como em ddo para dedo, lc para hélice, hto para gato, bb para bebê, etc.
Não se trata de regressão ou permanência na hipótese de que cada sílaba oral é representada por uma e somente por uma letra. Vê-se que esta hipótese já está superada através das sílabas que ele representa com mais de uma letra.
Diferença entre processo e produto
O equívoco de considerar silábico-alfabético como nível pode vir da dificuldade de compreender a diferença entre processo e produto. Considerando somente o produto, isto é, a escrita de glo para gelo, a de zba para zebra pode parecer mescla de duas hipóteses quanto à organização das sílabas, a silábica (S) e a alfabética (A). É tão somente a utilização do nome da letra como se fora uma sílaba, ao produzir escritas. Vê-se que os alunos já superaram a hipótese silábica quando escrevem algumas sílabas só com uma letra na escrita de outras sílabas com duas letras. Didaticamente, importa provocá-los a distinguirem escrita de letras, dos nomes que as letras têm.
Eskema – esquema de pensamento
Esquema de pensamento, que já passou a ser grafado em português como eskema, é o que move nossa inteligência quando queremos responder uma pergunta ou produzir um efeito.
Eskema no PS1
Quando uma criança se pergunta como se escreve ou onde e como se lê, o seu primeiro eskema assenta-se sobre a hipótese de que escrever é desenhar e que ler é interpretar imagens. Esta hipótese, por sua vez, tem por trás a ideia de que escrever é por no papel a figura do que se quer ver escrito. Escrever é, pois, representar concretamente, com forma exterior, o referente desejado. Deriva daí que só se escreve o que pode ser representado figurativamente. Há um fechamento lógico entre os elementos conceituais que estão por de trás da escrita de um aprendente no nível Pré-silábico 1. A completude deste fechamento é que se constitui no motor que dá surgimento às escritas com figuras do PS1. Para deixar de produzir este tipo de escrita o aluno tem que abandonar o eskema que o gerava e isto significa uma passagem de nível psicogenético.
Eskema no PS2
Do nível PS1 ele passa para o PS2 no qual o seu eskema, é completamente diferente do anterior. Agora ele já deu um enorme passo cognitivo – escrever não é desenhar, não é por no papel os traços figurativos dos referentes. Escrever é passar do figurativo para outro tipo de relação com a forma dos referentes. A escrita passa a ser concebida como um traçado próprio, sem ter mais relação com os traços figurativos do que se escreve.
No nível pré-silábico 2 a escrita é logográfica, isto é, é vista como um traçado que representa uma palavra inteira. Esta escrita não tem nenhuma vinculação com a pronúncia daquilo quue se escreve. Há novamente um fechamento com clara completude, um eskema capaz de levar o aprendente a gerar escritas com essas características.
Eskema no S
Passar a levar em conta a pronúncia ao escrever é um novo grande passo, que contrasta radicalmente com o eskema do nível PS²2. A descoberta da vinculação entre fala e escrita inaugura o período de fonetização nesta caminhada apaixonante do aprendente rumo à alfabetização. Ela instala um novo e surpreendente eskema, ou seja, um novo esquema que orienta os pensamentos e a ação. E ele tem, portanto, fechamento e completude novamente. A base deste eskema é que a cada sílaba oral escreve-se uma letra ou algum outro sinal gráfico. Trata-se de uma vinculação simplificada da escrita com a pronúncia das palavras, pois vincula-se apenas as sílabas orais às letras.
Mas há uma coerência lógica entre as ideias que embasam o eskema do candidato a leitor.
Porém, surge o momento em que o aprendente se dá conta da inadequação da sua escrita, porque ela não é discriminativa suficientemente. Apenas uma letra para cada sílaba é muito pobre para que alguém se faça entender por escrito.
Eskema no A
Ele entra, então, depois de suportar a dor da perda do eskema do nível silábico no nível alfabético, no qual o aprendente se dá conta de uma vinculação mais fina entre sons falados e grafias.
Ele pensa descobrir, muitas vezes emocionado, que a cada vez que se abre a boca para pronunciar um palavra se deve escrever duas letras ou, simplesmente, dois sinais gráficos.
Para tal, ele é obrigado a abandonar a hipótese silábica, na qual se escreve uma letra para cada sílaba oral.
Ele passa a utilizar um outro eskema diferente do silábico que o leva a produzir escritas alfabéticas.
Numa psicogênese, dois eskemas não convivem entre si. Dialeticamente, um substitui o outro.
Ruptura entre níveis
Vê-se claramente que aprender é transitar eskemas independentes entre si, cujo trânsito implica obrigatoriamente numa ruptura entre o atual e o anterior. Assim como foi impossível compatibilizar a ideia de que o Sol girava em torno da Terra, amplamente acreditada por muitos cientistas e por muito tempo, e a constatação de que é a Terra que gira em torno do Sol passar de um nível psicogenético a outro não pode ser por conexão, por um transcurso contínuo.
Portanto, pensar-se um eskema para um pseudo nível silábico-alfabético seria negar o princípio fundante de um eskema – fechamento e completude, que são o combustível do motor que produz as aprendizagens.
Por que silábico-alfabético (SA) não é um nível psicogenético?
Porque não se estrutura como um esquema de pensamento, eskema. Um nível tem as características de uma miniestrutura lógica: deve ter compatibilidade de hipóteses e deve ter certo fechamento e certa completude, o que configura um esquema de pensamento.
Ora, falta um eskema ao equivocadamente denominado nível silábico-alfabético(SA).
Interferência de outro eixo
Existe, sim, uma produção escrita com aparências silábico-alfabéticas. O alfabetizando representa, algumas vezes, uma sílaba oral com uma só letra, o que é típico da vivência da hipótese silábica. Porém, o faz por interferência de outro eixo na trajetória rumo à leitura e à escrita, que é o do conhecimento das letras. Neste eixo ele simplifica a escrita de sílabas porque elas correspondem ao nome de uma letra, como em ddo para dedo, lc para hélice, hto para gato, bb para bebê, etc.
Não se trata de regressão ou permanência na hipótese de que cada sílaba oral é representada por uma e somente por uma letra. Vê-se que esta hipótese já está superada através das sílabas que ele representa com mais de uma letra.
Diferença entre processo e produto
O equívoco de considerar silábico-alfabético como nível pode vir da dificuldade de compreender a diferença entre processo e produto. Considerando somente o produto, isto é, a escrita de glo para gelo, a de zba para zebra pode parecer mescla de duas hipóteses quanto à organização das sílabas, a silábica (S) e a alfabética (A). É tão somente a utilização do nome da letra como se fora uma sílaba, ao produzir escritas. Vê-se que os alunos já superaram a hipótese silábica quando escrevem algumas sílabas só com uma letra na escrita de outras sílabas com duas letras. Didaticamente, importa provocá-los a distinguirem escrita de letras, dos nomes que as letras têm.
Eskema – esquema de pensamento
Esquema de pensamento, que já passou a ser grafado em português como eskema, é o que move nossa inteligência quando queremos responder uma pergunta ou produzir um efeito.
Eskema no PS1
Quando uma criança se pergunta como se escreve ou onde e como se lê, o seu primeiro eskema assenta-se sobre a hipótese de que escrever é desenhar e que ler é interpretar imagens. Esta hipótese, por sua vez, tem por trás a ideia de que escrever é por no papel a figura do que se quer ver escrito. Escrever é, pois, representar concretamente, com forma exterior, o referente desejado. Deriva daí que só se escreve o que pode ser representado figurativamente. Há um fechamento lógico entre os elementos conceituais que estão por de trás da escrita de um aprendente no nível Pré-silábico 1. A completude deste fechamento é que se constitui no motor que dá surgimento às escritas com figuras do PS1. Para deixar de produzir este tipo de escrita o aluno tem que abandonar o eskema que o gerava e isto significa uma passagem de nível psicogenético.
Eskema no PS2
Do nível PS1 ele passa para o PS2 no qual o seu eskema, é completamente diferente do anterior. Agora ele já deu um enorme passo cognitivo – escrever não é desenhar, não é por no papel os traços figurativos dos referentes. Escrever é passar do figurativo para outro tipo de relação com a forma dos referentes. A escrita passa a ser concebida como um traçado próprio, sem ter mais relação com os traços figurativos do que se escreve.
No nível pré-silábico 2 a escrita é logográfica, isto é, é vista como um traçado que representa uma palavra inteira. Esta escrita não tem nenhuma vinculação com a pronúncia daquilo quue se escreve. Há novamente um fechamento com clara completude, um eskema capaz de levar o aprendente a gerar escritas com essas características.
Eskema no S
Passar a levar em conta a pronúncia ao escrever é um novo grande passo, que contrasta radicalmente com o eskema do nível PS²2. A descoberta da vinculação entre fala e escrita inaugura o período de fonetização nesta caminhada apaixonante do aprendente rumo à alfabetização. Ela instala um novo e surpreendente eskema, ou seja, um novo esquema que orienta os pensamentos e a ação. E ele tem, portanto, fechamento e completude novamente. A base deste eskema é que a cada sílaba oral escreve-se uma letra ou algum outro sinal gráfico. Trata-se de uma vinculação simplificada da escrita com a pronúncia das palavras, pois vincula-se apenas as sílabas orais às letras.
Mas há uma coerência lógica entre as ideias que embasam o eskema do candidato a leitor.
Porém, surge o momento em que o aprendente se dá conta da inadequação da sua escrita, porque ela não é discriminativa suficientemente. Apenas uma letra para cada sílaba é muito pobre para que alguém se faça entender por escrito.
Eskema no A
Ele entra, então, depois de suportar a dor da perda do eskema do nível silábico no nível alfabético, no qual o aprendente se dá conta de uma vinculação mais fina entre sons falados e grafias.
Ele pensa descobrir, muitas vezes emocionado, que a cada vez que se abre a boca para pronunciar um palavra se deve escrever duas letras ou, simplesmente, dois sinais gráficos.
Para tal, ele é obrigado a abandonar a hipótese silábica, na qual se escreve uma letra para cada sílaba oral.
Ele passa a utilizar um outro eskema diferente do silábico que o leva a produzir escritas alfabéticas.
Numa psicogênese, dois eskemas não convivem entre si. Dialeticamente, um substitui o outro.
Ruptura entre níveis
Vê-se claramente que aprender é transitar eskemas independentes entre si, cujo trânsito implica obrigatoriamente numa ruptura entre o atual e o anterior. Assim como foi impossível compatibilizar a ideia de que o Sol girava em torno da Terra, amplamente acreditada por muitos cientistas e por muito tempo, e a constatação de que é a Terra que gira em torno do Sol passar de um nível psicogenético a outro não pode ser por conexão, por um transcurso contínuo.
Portanto, pensar-se um eskema para um pseudo nível silábico-alfabético seria negar o princípio fundante de um eskema – fechamento e completude, que são o combustível do motor que produz as aprendizagens.
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