Como definir
o pacto de convivência com os alunos no começo do ano?
Uma conversa reflexiva, em que as crianças ou
jovens possam opinar, funciona melhor do que impor regras.
No primeiro dia de aula, é comum que
os professores, durante suas apresentações, falem das regras a serem seguidas
ao longo do ano – bem como das consequências quando forem descumpridas.
Acontece que, na maioria das vezes, mais cedo do que desejamos, os alunos não
só deixam de se orientar por elas, como simplesmente as esquecem. Isso,
normalmente, desencadeia desgastes e conflitos nas relações entre os docentes e
os estudantes. O que podemos fazer, então, para evitar os embates?
A resposta está relacionada aos
nossos objetivos como educadores. Se desejamos auxiliar na formação da
autonomia cognitiva e moral dos alunos, logo entenderemos que não basta listar o que pode ou não ser feito por eles.
É necessário engajá-los em suas
responsabilidades. E para fazer isso, os primeiros contatos no início do ano
são muito favoráveis. Neste momento, há por parte dos alunos e professores
maior disposição para um diálogo desse tipo.
Por isso, além da conversa
“quebra-gelo”, quando o docente faz sua apresentação pessoal, vale sugerir que
ele proponha à turma uma atividade reflexiva sobre a qualidade do clima que se quer e se deve ter, focando nas
características relacionais e não nas materiais. É possível que já neste
momento algumas regras surjam naturalmente. A ideia é discutir econstruir com cada turma os acordos, o contrato ou o pacto de convivência – a escolha do nome, junto com os
alunos, também faz parte da atividade.
Nesta atividade, o ideal é que se
registre todas as sugestões apresentadas pela garotada, mesmo aquelas “sem
noção” e, depois, se faça um debate sobre quais itens registrados sãodireitos de cada um e quais são os de todos.
Cabe ao professor deixar claro para a classe que o direito
de um nunca deve ferir o direito do outro. Via de regra, os alunos destacam
alguns pontos que se referem aos direitos
centrais de uma Educação de qualidade. Isso abre espaço para o professor
resumir tudo em uma lista que agrupe os tópicos de acordo com oprincípio ao qual eles se relacionam.Por exemplo: “Ter mais de uma explicação para entender uma tarefa” e “ter aulas ‘diferentes’” estão ligados ao princípio de uma boa
aprendizagem. “Poder errar sem medo de ser
‘zoado’” e “ser chamado a atenção em particular e
não na frente de todos”, por sua vez, diz respeito aos princípios do
respeito e da justiça.
À medida que os direitos são
agrupados, é importante também tratar sobre asresponsabilidades, afinal não há
como desvincular uma coisa da outra. Identificar o que compete a cada um para
que os direitos sejam preservados será, portanto, um processo natural,
verdadeiro e reflexivo. Assim que o quadro estiver completo, é hora de nomear
osprincípios presentes: boa aprendizagem,
comunicação, segurança, respeito etc. O resultado disso é contrato de convivência da turma, que, como tal, deve se
tornarpúblico,tanto para os
estudantes como para as famílias.
No decorrer dos dias, serão muitas as
oportunidades de convidar a classe ou, quando for o caso, alguns alunos em
particular, a refletir sobre quais princípios estão sendo preservados – ou não
–, o porquê e o que deve ser feito para garanti-lo. Quanto mais professores
adotarem uma prática reflexiva sobre a convivência
na escola, maior a chance das atitudes positivas estarem presentes nas
relações.
Se o professor decidisse apenas criar
um quadro de regras e ditá-las aos alunos, eles poderiam até decorá-las caso
elas fossem repetidas muitas vezes, mas, certamente, não seriam internalizadas – o que, de fato, nos interessa para o
desenvolvimento da autonomia. Obedecer à regra sem pensar a razão de ela existir e se realmente é justa e necessária é
estar ancorado na heteronomia. O processo descrito acima, sem dúvida, é mais
trabalhoso. Mas nos garante a coerência em relação aos nossos objetivos.
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