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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

OS NÍVEIS DA ESCRITA



Os diferentes níveis do conhecimento da escrita:


O conhecimento do sistema escrito alfabético, tanto pela criança, como pelo analfabeto adulto, passa por diferentes níveis. O sujeito procura ativamente compreender a natureza da língua escrita à sua volta, formula hipóteses próprias. Suas hipóteses se contradizem e, superando estes conflitos, o conhecimento avança. Suas tentativas de escritas mostram seus “erros construtivos”, essenciais à aprendizagem.
Os alfabetizandos poderão se encontrar em vários níveis, como veremos a seguir:

Nível Pré-silábico:

                        O nível pré-silábico é o mais elementar, segundo a pesquisadora Emília Ferreiro. Neste nível o alfabetizando ainda não descobriu o que a escrita representa, não descobriu ainda que a escrita representa a fala. No realismo nominal, ele relaciona a palavra ao tamanho do objeto, representando. A escrita é arbitrária, mistura as letras. Normalmente, neste nível, o alfabetizando escreve um amontoado de letras juntas, e a correspondência gráfica não coincide com nenhum valor sonoro.


Nível silábico:

O alfabetizando se encontra neste nível quando percebe (ou descobre), pensando, refletindo, o que a escrita representa. Ele percebe que as variações de sinais na escrita correspondem às variações sonoras da fala, o aluno se preocupa com o número de letras das palavras e segue à risca a hipótese que concebeu de que cada sinal gráfico (letra) corresponde a uma sílaba.
Nesse nível, o aluno percebe a palavra como um todo, constituído de partes que, para ele, correspondem a letras que representam cada sílaba.

 

Nível Silábico-Alfabético:

                        Neste nível, o alfabetizando dá ao observador a impressão de que está “comendo letras” em suas palavras, mas na realidade ele as está acrescentando. Quando descobre que cada sinal gráfico deve representar, não a sílaba, mas o fonema (que é a menor unidade sonora da palavra), vai tentar outras hipóteses: acrescentar letras no início, no meio ou no fim da palavra. Quando a compara com a escrita do jornal, do alfabetizador ou dos textos e cartazes da parede, verifica que faltaram letras e que devem aperfeiçoar sua escrita a partir das semelhanças e diferenças. Isso obriga a buscar sempre novos recursos. Constrói, assim, seu conhecimento, portanto o sujeito do processo de sua aprendizagem.



Nível Alfabético:


                        Neste nível, o sujeito atingiu a compreensão do sistema de escrita alfabética. O alfabetizando já escreve como fala; falta-lhe apenas descobrir que nem sempre se escreve como se fala. Sua mensagem já é entendida por todos. Novos conflitos surgem exigindo novas reelaborações:
·         descoberta de que a sílaba pode ter uma ou mais letras;
·         descoberta de que não há uma regularidade absoluta na correspondência som-grafia;
·         descoberta da separação convencional entre as palavras da oração;
O aluno alfabético escreve foneticamente e não ortograficamente.



Por que definir o nível de escrita de cada alfabetizando:

Poder definir o nível de conhecimento da língua escrita de cada um de nossos alunos trouxe muito incentivo ao trabalho de alfabetização. Fez-nos ver que nossos alunos já chegam ao curso de alfabetização sabendo  sua língua   materna  e  conhecendo  mais   ou menos a língua escrita. Isto porque, vivendo numa sociedade letrada, cotidianamente são obrigados a resolver situações que requerem a leitura. O mesmo não se pode dizer de uma pessoa que viva na zona rural, onde o contato com a escrita é menor.
O trabalho se orienta em três direções: no desenvolvimento da linguagem oral, da escrita e da leitura, partindo sempre da realidade dos alunos, seus sonhos, seus projetos, suas alegrias e tristezas. Buscando as causas de cada dificuldade e também o que fazer para trabalhar na sua solução.
O aluno dever ser motivado a ler tudo o que possa ser vivenciado como função social da escrita: livros, jornais, cartas, bilhetes, contas de água, luz, etc..
Aprender a escrever escrevendo, aprender a ler lendo. Aprender a ler a realidade, a interpretar o mundo à sua volta, compartilhando, com todos, os conhecimentos e sentimentos.
Tendo em vista o modo complexo de representação do sistema escrito alfabético-ortográfico, algumas implicações metodológicas se evidenciam:

·         As regras básicas do sistema escrito convencional devem ser assimiladas pelos educandos. Não escamotear as dificuldades, elas existem. Evitar os falsos artifícios (tipo “o v é o chifre da vaca”, “o ponto de interrogação é uma bengalinha”) que não têm a ver com as características propriamente lingüísticas;
·         Oferecer atividades planejadas para que o alfabetizando descubra e compreenda as regras do sistema escrito: observando, comparando ativamente, analisando as diferenças e semelhanças no som e grafia das palavras;
·         Não é necessário repetir todos os possíveis padrões silábicos, esgotar cada grupo de famílias silábicas para iniciar uma seguinte. O educando transfere ativamente o aprendizado de uma situação para outras semelhantes;
·         É preciso rever a tradicional seqüência na alfabetização. Começar do mais fácil? O que é mais fácil ou mais difícil em se mostrado muito relativo entre os diferentes alfabetizandos. Os fundamentos científicos dos estudos psicogenéticos de Emília Ferreiro nos mostram que o mais razoável é diagnosticar o conhecimento atual do sujeito, o nível de sua concepção sobre o sistema escrito e, visualizando a etapa seguinte que lhe falta compreender, organizar desafios que lhe permitam avançar. Paulo Freire há longos anos vem insistindo no fato de se partir do conhecimento do mundo, não permanecer nele, mas superá-lo através do diálogo educativo;
·         Convivendo com uma multiplicidade de materiais escritos fora da escola, como também na sala de aula, e tendo a oportunidade de pensar, perguntar, quando surgem as dúvidas, nos momentos de leitura silenciosa e de escrita espontânea, os alfabetizandos vão descobrindo palavras novas, independentemente da seqüência planejada pelo professor. Os educandos vão compondo sua leitura e escrita por tentativas, hipóteses, generalizações, “erros construtivos”. É fundamental favorecer e valorizar este estabelecimento. O aluno não aprende só o que o professor ensina.

Diante dessas implicações metodológicas, o educador supõe uma concepção construtivista de aprendizagem: sujeito é ativo, faz elaborações inteligentes. Nega aquela concepção behaviorista de aprendizagem como um acúmulo linear de informações, recepção e armazenamento de informações de fora. A concepção bancária de Educação, contra a qual nos alerta Paulo Freire, entende a mente do educando como um receptáculo, depósito de informações prontas. Aqui o educador não comunica, faz comunicados. A aprendizagem não é linear é descontínua, supõe avanços, momentos de estagnação devido aos conflitos e mesmo momentos de aparente retrocesso.
Outro detalhe metodológico importante: é mais coerente com o uso funcional-social da linguagem, alternar a apresentação das palavras conforme a variação da posição das vogais (V) e consoantes (C), (CV-CVV-VC-CCV-CVC). Estas palavras serão sempre selecionadas do contexto significativo vivenciado pelos educandos.
Sabemos que no nível silábico de conhecimento sobre o sistema escrito, o sujeito escreve um sinal gráfico para cada sílaba falada. (Exemplo: C V O = “cavalo”). O sujeito precisa descobrir que a sílaba pode ter uma ou mais letras (elefante, transporte) para avançar para a compreensão alfabética da escrita. Desde o início da alfabetização é necessário, então, ter contato com esses variados modelos de constituição de sílabas. Destacar apenas sílabas do tipo CV (macaco) durante os primeiros meses da alfabetização pode gerar uma indevida generalização de que a sílaba é sempre de duas letras (tipo CV).

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